Viver na Margem Sul

O 25 de Abril e a Margem Sul — a Revolução dos Cravos

O dia em que a ditadura acabou. O que foi a revolução, porque contaram tanto os operários dos estaleiros da margem sul, e o que o 25 de Abril significa e como se sente hoje na Margem Sul.

Atualizado em abril de 2026
25 abr 1974
O dia da revolução
~6 horas
Da madrugada à vitória
4
Mortos (todos civis)
Feriado nacional
Todos os anos
Visão geral

O Dia Que Fez o Portugal Moderno

O 25 de abril de 1974 é a data que define o Portugal moderno. Ao fim de 41 anos de Estado Novo, um movimento coordenado de oficiais intermédios do exército derrubou o regime num golpe praticamente sem sangue, que levou cerca de seis horas da madrugada à vitória. O dia ficou batizado como a Revolução dos Cravos — pelas flores vermelhas que a florista Celeste Caeiro distribuiu aos soldados, que as puseram nos canos das espingardas.

Para a Margem Sul, o 25 de Abril tem um peso particular. Os operários da margem sul — sobretudo nos estaleiros da Lisnave, perto de Setúbal — tinham-se organizado clandestinamente contra o regime ao longo do final dos anos 60 e do início dos anos 70. Nos meses que se seguiram à revolução, esses mesmos trabalhadores foram uma das grandes forças políticas a moldar o que veio a seguir: as nacionalizações, a descolonização, a lenta construção de uma constituição democrática.

Este guia cobre o próprio dia, o papel da margem sul, o que o 25 de Abril significa hoje e como se celebra na Margem Sul.

O contexto

Porque Aconteceu a Revolução

A ditadura, as guerras coloniais e o ponto de rutura do exército.

O Estado Novo (1933–1974)

António de Oliveira Salazar assumiu o poder executivo em 1932 e consolidou a ditadura do Estado Novo em 1933. Depois da sua incapacitação, em 1968, Marcelo Caetano manteve o regime até 1974. No total, 41 anos — censura, a polícia política PIDE/DGS, repressão da oposição, dos sindicatos e do Partido Comunista, ideologia católica conservadora e atraso económico face à Europa Ocidental.

As guerras coloniais (1961–1974)

Portugal combateu três guerras em simultâneo para manter as colónias africanas: Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. As guerras arrastaram-se por 13 anos, mobilizaram centenas de milhares de jovens portugueses, mataram muitos milhares e sangraram a economia. Em 1973, a maioria dos oficiais superiores do exército sabia que as guerras não se podiam ganhar.

O Movimento das Forças Armadas (MFA)

Capitães e majores, movidos por queixas profissionais e cada vez mais opostos às guerras coloniais, organizaram-se em segredo ao longo de 1973 e do início de 1974. O Movimento das Forças Armadas coordenou o que começou por ser um protesto profissional mas depressa se tornou o instrumento para acabar com a ditadura.

O movimento operário

Apesar da repressão feroz da PIDE, a organização sindical e política clandestina nunca parou durante o regime. A concentração industrial da margem sul — Lisnave, Setenave, Quimiparque, as conserveiras de Setúbal — fez da Margem Sul um dos grandes centros da atividade operária clandestina. Em 1974, as redes estavam prontas para vir à superfície no momento em que o regime caísse.

O dia

25 de Abril de 1974 — Hora a Hora

Um golpe praticamente sem sangue, conduzido por senhas na rádio e colunas de blindados.

22h55 (24 de abril) — Grândola, Vila Morena

A Rádio Renascença passou a proibida «Grândola, Vila Morena», de José Afonso, às 22h55 de 24 de abril. O MFA tinha combinado que a canção seria a segunda de duas senhas radiofónicas a confirmar que a operação estava em marcha. (A primeira — «E Depois do Adeus», de Paulo de Carvalho — já tinha tocado.)

A partir das 03h00 — as tropas mobilizam-se

Por todo o país, os oficiais do MFA puseram as suas unidades em movimento. Em Lisboa, as colunas militares formaram e avançaram sobre os edifícios-chave do governo.

Madrugada — as colunas chegam ao centro de Lisboa

Ao romper do dia, as colunas do MFA sob o comando do capitão Salgueiro Maia tinham chegado ao centro de Lisboa. Os blindados tomaram posição na Praça do Comércio. Tinham começado as últimas horas da ditadura.

Manhã — Marcelo Caetano cercado

O presidente do Conselho, Marcelo Caetano, refugiou-se no Quartel do Carmo, no centro de Lisboa. As tropas do MFA cercaram o quartel. Seguiram-se negociações tensas.

Tarde — Caetano rende-se

Caetano rendeu-se ao fim da tarde ao general Spínola, na condição de o poder ser entregue ao general e não diretamente aos capitães do MFA. Caetano partiu para o exílio, primeiro na Madeira, depois no Brasil. A ditadura tinha acabado.

Os cravos

Durante a manhã, a florista lisboeta Celeste Caeiro — que por acaso trazia cravos vermelhos de um restaurante que celebrava o primeiro aniversário — começou a distribuí-los aos soldados nas ruas. As tropas puseram-nos nos canos das espingardas e nas fardas. A imagem tornou-se o símbolo do dia. A revolução ganhou o seu nome.

As vítimas

Morreram quatro civis, todos baleados pela PIDE durante um confronto à porta da sede da polícia política, em Lisboa. A operação militar em si não derramou sangue. À escala internacional das mudanças de regime, a Revolução dos Cravos foi extraordinariamente pacífica.

A margem sul

Porque Contou Tanto a Margem Sul

A concentração industrial da margem sul fez dela um centro da política revolucionária no ano que se seguiu.

Concentração industrial

Em 1974, a margem sul reunia alguns dos maiores locais de trabalho industriais de Portugal. O estaleiro da Lisnave na Mitrena (a leste de Setúbal) empregava muitos milhares de trabalhadores; a vizinha Setenave era semelhante; o complexo químico da Quimiparque, no Barreiro, empregava mais milhares; as conserveiras de Setúbal continuavam em escala industrial. A combinação criou uma densidade operária que poucas outras zonas do país igualavam.

Organização clandestina

Essa densidade fez da Margem Sul um dos grandes centros da organização sindical e política clandestina durante a ditadura. O PCP tinha raízes profundas; os partidos à esquerda deste cresceram no final dos anos 60; e as redes quotidianas de entreajuda, preparação de greves e formação política eram fortes, apesar da vigilância da PIDE.

O momento Lisnave

Nos meses seguintes ao 25 de Abril de 1974, os trabalhadores da Lisnave tornaram-se uma das forças políticas mais visíveis do primeiro período revolucionário. Uma célebre manifestação de massas dos operários da Lisnave no centro de Lisboa, em setembro de 1974, ajudou a definir o equilíbrio político durante o período de instabilidade revolucionária que se seguiu ao golpe. O envolvimento dos trabalhadores dos estaleiros nesse período é um dos episódios mais estudados da história laboral portuguesa moderna.

Descolonização e regresso

Portugal concedeu a independência a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde no espaço de um ano após a revolução. Várias centenas de milhares de portugueses — os retornados — regressaram a um país ainda em convulsão revolucionária. Muitos fixaram-se na Grande Lisboa, incluindo na margem sul. A transformação cultural que se seguiu redesenhou a demografia da região.

A Festa do Avante

A Festa do Avante — o festival político-cultural do PCP, realizado todos os setembros na Quinta da Atalaia, na Amora — é o legado mais visível da política revolucionária da margem sul. Independentemente do que cada um pense do partido, o festival é um dos maiores eventos culturais de Portugal — mais de 100 000 visitantes em três dias de música, gastronomia e cultura. Veja o nosso guia de festas.

O que significa hoje

O 25 de Abril no Imaginário Coletivo

Mais do que um feriado — o dia que atravessa a língua, a música e a política.

Liberdade

A palavra que anda sempre ao lado do 25 de Abril é «Liberdade». Antes de 1974, a liberdade de expressão, de associação e de participação política estava cortada. A revolução devolveu-as. E «25 de Abril, sempre!» continua a ser a resposta pronta, no discurso público, a tudo o que cheire a autoritarismo.

As canções

«Grândola, Vila Morena», de José Afonso, é o hino não oficial da revolução. Toca em todas as comemorações, canta-se nos estádios, cita-se nos discursos. «E Depois do Adeus», de Paulo de Carvalho — a primeira senha da rádio — é a companheira mais suave. Ambas fazem parte da memória coletiva.

O cravo

O cravo vermelho tornou-se o emblema do dia. Usa-se na lapela a 25 de abril, enche jarras em cafés e em casas, segue nas marchas. É um símbolo de todos os portugueses, não de um partido.

A ponte

A ponte sobre o Tejo, entre Lisboa e Almada — inaugurada em 1966 como «Ponte Salazar» e rebatizada «25 de Abril» depois da revolução — é o pedaço de simbolismo revolucionário mais legível do quotidiano português. Atravessá-la de carro (ou vê-la de uma praia, ou fotografá-la de qualquer ponto da Margem Sul) é um lembrete diário.

A Constituição

A Constituição saída da revolução — ratificada em 1976 — continua a ser a base da democracia portuguesa, com revisões significativas ao longo dos anos mas o mesmo núcleo revolucionário. O artigo 1.º declara Portugal uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária. A redação é, inconfundivelmente, a de um documento revolucionário.

Hoje

Como se Celebra o 25 de Abril na Margem Sul

O dia na margem sul — o que esperar, onde ir.

Feriado nacional

O 25 de Abril é feriado nacional em todo o país. Bancos, serviços públicos e a maior parte do comércio fecham. Os restaurantes costumam abrir; muitos têm menus especiais e programação musical.

Eventos das Câmaras Municipais

Cada município da Margem Sul tem o seu programa. Almada, Seixal, Setúbal, Sesimbra e Palmela organizam todos eventos comemorativos — sessões solenes, cerimónias militares ou cívicas e, sobretudo, concertos públicos gratuitos ao fim do dia.

Os concertos gratuitos

Os concertos do 25 de Abril são um dos pontos mais fiáveis do calendário cultural. O Seixal, em particular, é conhecido pela qualidade dos concertos gratuitos de 25 de Abril — os últimos anos trouxeram Sérgio Godinho, A Garota Não e outros artistas portugueses de referência. As multidões são grandes; o ambiente é familiar e de calor político.

Marchas e desfiles

Lisboa acolhe o maior desfile cívico — a célebre descida da Avenida da Liberdade, com cravos, faixas e as canções da revolução. Do lado de cá, Almada e o Seixal têm as suas marchas cívicas, mais pequenas. Fáceis de juntar a partir de qualquer ponto da Margem Sul.

Mesa e família

Muitas famílias da margem sul fazem do 25 de Abril um almoço prolongado com amigos e família alargada. Caldeirada, peixe fresco, vinhos da região. O dia junta a comemoração ao gosto português pela mesa longa.

A pensar visitar nesta altura?

O final de abril é uma das melhores alturas do ano para conhecer a região — tempo ameno, época baixa, e a oportunidade de viver um feriado com significado profundo. Se está a pensar mudar-se para a Margem Sul, marcar uma volta de visitas a casas por volta do 25 de Abril permite ver como a região transporta a sua história.

Se cá estiver a 25 de Abril

Três coisas a fazer: atravessar a Ponte 25 de Abril ou passar por baixo dela no barco de Cacilhas (vai ver bandeiras). Passar o fim do dia num dos concertos gratuitos do Seixal ou de Almada. E ouvir a «Grândola, Vila Morena» pelo menos uma vez durante o dia. O dia recompensa um bocadinho de atenção.

Para ir mais fundo

Onde Saber Mais

Livros, filmes e museus para ir além da história essencial.

O museu do 25 de Abril (Lisboa)

O Museu do Aljube — Resistência e Liberdade — está instalado na antiga prisão da PIDE, em Alfama. É a exposição permanente mais completa sobre a ditadura e o seu fim. A uma curta viagem de barco da margem sul.

Filmes

«Capitães de Abril» (2000), de Maria de Medeiros, é o retrato cinematográfico de referência do dia da revolução — uma recriação ficcionada mas bem documentada dos capitães do MFA nas horas do golpe.

Música

Para lá das canções-senha, oiça José Mário Branco, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira. Toda uma geração da música portuguesa saiu da revolução — e entrou nela.

Livros

A literatura em português é imensa — Fernando Rosas, José Pacheco Pereira e outros escreveram relatos de referência. Em inglês, «The Making of Portuguese Democracy», de Kenneth Maxwell, é a história de referência.

Memória local

Fale com os moradores mais velhos de Almada, do Seixal ou de Setúbal. Há muita gente que viveu o dia ainda entre nós. Os seus relatos são, muitas vezes, a porta de entrada mais comovente para o período.

O 50.º aniversário (2024) e depois

2024 marcou o 50.º aniversário da revolução, com um programa alargado de comemorações, exposições e redescoberta. O impulso prolongou-se por 2025 e 2026, com atenção renovada aos acontecimentos de 1974–1976. A reflexão sobre o que a revolução conseguiu — e o que ficou por conseguir — está genuinamente viva no debate público português neste momento.

Perguntas frequentes

25 de Abril — Perguntas Frequentes

De onde vieram os cravos?
Durante o dia 25 de abril de 1974, a florista lisboeta Celeste Caeiro distribuiu cravos vermelhos aos soldados nas ruas. As tropas puseram-nos nos canos das espingardas e nas fardas. A imagem tornou-se o símbolo do dia e deu nome à revolução — a Revolução dos Cravos.
A revolução foi violenta?
Quase nada. A operação militar que derrubou o regime não derramou sangue. Houve quatro mortos civis durante o dia, todos baleados pela PIDE num confronto à porta da sede da polícia política, em Lisboa. À escala internacional das mudanças de regime, a Revolução dos Cravos foi extraordinariamente pacífica.
O que aconteceu nos meses seguintes?
Um período complicado de instabilidade revolucionária que durou cerca de 18 meses. Vários governos provisórios. Nacionalizações significativas da banca e das grandes indústrias. Independência das colónias africanas. Uma tentativa de contragolpe à direita em março de 1975. Um período de governação de pendor comunista. Por fim, chegou-se a um entendimento constitucional moderado e a Constituição foi ratificada em 1976.
Porque foi a margem sul importante?
A Margem Sul reunia alguns dos maiores locais de trabalho industriais do país — o estaleiro da Lisnave, a química da Quimiparque, as conserveiras de Setúbal. A concentração operária fez dela um grande centro da organização laboral e política clandestina durante a ditadura. Nos meses seguintes à revolução, esses trabalhadores foram uma força política de primeira linha.
Como se celebra hoje o 25 de Abril?
Feriado nacional. Concertos gratuitos em muitas cidades e vilas — na Margem Sul, o Seixal é particularmente conhecido pela qualidade dos concertos do 25 de Abril. Marchas cívicas em Lisboa, em Almada e não só. Cravos na lapela. As canções da revolução por todo o lado. Um dia genuinamente participado e de família.
Porquê a «Grândola, Vila Morena» como senha?
A canção de José Afonso sobre a vila alentejana de Grândola, com a sua imagética de fraternidade e de povo soberano, estava proibida pela ditadura pelas simpatias comunistas que lhe atribuía. O MFA usou-a como senha radiofónica na noite de 24 de abril de 1974 para confirmar que a revolução estava em marcha — precisamente por ser uma canção que o regime tinha banido. Tornou-se o hino não oficial da revolução.
Porque tem a ponte o nome da revolução?
A ponte foi inaugurada em 1966 como «Ponte Salazar», com o nome do ditador. Depois da Revolução dos Cravos, foi oficialmente rebatizada «25 de Abril», em memória da data. O próprio rebatismo é simbolismo revolucionário — uma das infraestruturas mais visíveis do país a lembrar, todos os dias, quem a atravessa.
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