História da Margem Sul
Das salgas romanas nos estuários do Tejo e do Sado aos mouros que deixaram os seus castelos, aos estaleiros que construíram o Portugal moderno e à revolução que pôs fim à ditadura — a história da margem sul numa só leitura.
Atualizado em abril de 2026Porque é que a Margem Sul Tem uma História Tão Longa
A Margem Sul está povoada, sem interrupção, há milhares de anos. Os dois grandes estuários — o Tejo a norte e o Sado a sul — deram-lhe portos abrigados, peixe em abundância e acesso ao comércio do Mediterrâneo e do Atlântico. Todas as grandes potências que passaram pela Península Ibérica deixaram aqui alguma coisa: fenícios, romanos, visigodos, mouros, os reinos cristãos medievais, os Descobrimentos, a ditadura, a revolução que lhe pôs fim.
Este guia percorre a história desde o início. Cada capítulo é curto; em conjunto, explicam por que razão as terras da margem sul são hoje o que são — porque tem Sesimbra um castelo mouro, porque teve Setúbal fábricas de salga romanas, porque tem Almada património industrial, e porque é o 25 de Abril a data que define o Portugal moderno.
Fenícios, Romanos e as Primeiras Indústrias
Os estuários foram um íman para os primeiros comerciantes mediterrânicos.
Povoamento pré-romano
Os povos lusitanos e celtas viviam ao longo dos estuários do Tejo e do Sado muito antes do contacto mediterrânico. Os comerciantes fenícios e cartagineses estabeleceram entrepostos ao longo da costa a partir de cerca de 800 a.C., trocando produtos do Mediterrâneo por estanho, cobre e peixe salgado.
Cetóbriga romana
Roma chegou à península em 218 a.C. e trouxe à região a produção em escala industrial. A povoação de Cetóbriga — na península de Tróia, do outro lado do estuário face à atual Setúbal — tornou-se um dos maiores centros de produção de garum do império, salgando peixe e produzindo o molho de peixe fermentado que temperava a cozinha romana. As ruínas dos tanques de salga ainda são visíveis em Tróia.
Salácia (Alcácer do Sal)
A sul de Setúbal, Salácia (a atual Alcácer do Sal) foi outro importante centro romano, também dedicado ao sal e à salga de peixe. O próprio sal era uma mercadoria estratégica para Roma.
O que sobrevive
As ruínas de Tróia são acessíveis de barco a partir de Setúbal. O museu de Setúbal guarda espólio romano. E a toponímia — o próprio nome Setúbal deriva de «Cetóbriga», através de «Santúbal» — traz a antiguidade à vista de todos.
Os Séculos Muçulmanos (711–1147)
Quatro séculos de Ibéria islâmica deixaram castelos, agricultura e topónimos por toda a margem sul.
A chegada dos mouros
Em 711 d.C., os exércitos mouros atravessaram do Norte de África e, em poucos anos, controlavam a maior parte da Península Ibérica. A Margem Sul ficou sob o Califado e, mais tarde, sob os reinos de taifa do al-Andalus — concretamente o reino de Badajoz, a partir do século XI.
Castelos e infraestrutura
O grande património construído do período muçulmano na margem sul sobrevive: o Castelo de Sesimbra domina a encosta sobre a vila piscatória; o Castelo de Palmela ergue-se no seu monte, no país do vinho; e as fortificações originais de Almada também eram mouras. Os mouros desenvolveram ainda a irrigação, a cultura dos citrinos e o cultivo do arroz — que moldaram a agricultura durante séculos.
Topónimos
«Almada» vem do árabe al-ma’dan, «a mina». Muitos topónimos da margem sul remontam a este período. «Alcochete» é também de origem árabe.
A Reconquista — de 1147 em diante
D. Afonso Henriques tomou Lisboa em 1147, com a ajuda dos cruzados. A Margem Sul caiu nas mãos das forças cristãs nos anos seguintes. A Ordem de Santiago — uma das ordens religiosas militares — recebeu o controlo administrativo de grande parte da margem sul. A sua sede no Castelo de Palmela tornou-se um dos assentos mais importantes da ordem em Portugal.
A Época dos Descobrimentos (séculos XV–XVI)
Portugal tornou-se um império global e a margem sul, uma das suas espinhas dorsais industriais.
À sombra de Lisboa
Ao longo dos séculos XV e XVI, Lisboa tornou-se o centro de um império global que ia do Brasil à Índia e a Macau. A margem sul, mesmo do outro lado do rio, tornou-se o seu quintal industrial — estaleiros, frotas de pesca, produção de sal, abastecimento agrícola.
Construção naval no Tejo
Os estaleiros de ambas as margens do Tejo construíram as caravelas e as naus que levaram os navegadores portugueses pelo mundo. A posição da margem sul — abrigada, com águas profundas e matas adjacentes para madeira — servia bem o ofício.
Legado religioso e arquitetónico
A riqueza dos Descobrimentos financiou edifícios que ainda hoje estão de pé. O Convento da Arrábida, construído no século XVI no parque natural entre Sesimbra e Setúbal, data desta época. O Palácio da Bacalhôa, em Azeitão — com os seus interiores de azulejo e jardins italianizantes — é um sobrevivente do Renascimento.
Declínio
A União Ibérica (1580–1640), quando Portugal esteve sob a coroa espanhola, encerrou as décadas mais ativas da expansão imperial. Portugal restaurou a independência em 1640, mas o crescimento do império abrandou.
O Terramoto de 1755 e o Longo Século XIX
Devastação, recuperação e a lenta industrialização que definiu a margem sul moderna.
O Grande Terramoto de Lisboa (1 de novembro de 1755)
Um dos sismos mais mortíferos da história europeia, com magnitude estimada entre 8,5 e 9. Lisboa ficou devastada; o tsunami que se seguiu subiu o Tejo e entrou pela margem sul. Setúbal, Sesimbra e a costa sofreram danos pesados. A reconstrução moldou a forma urbana de boa parte da região.
Mudança industrial
Ao longo do século XIX, a pesca em Sesimbra e Setúbal cresceu até à escala industrial. Setúbal tornou-se o grande centro conserveiro do país — sardinha do Atlântico embalada em azeite para os mercados europeus. A produção de sal em Alcochete continuou, com as salinas a moldar a paisagem do estuário do Tejo que ainda hoje sobrevive.
Vinho e cortiça
A Península de Setúbal consolidou neste período a sua identidade vinícola. A casa José Maria da Fonseca, em Azeitão, foi fundada em 1834 e mantém-se nas mãos da família. Veja o nosso guia de vinhos.
A Primeira República (1910–1926)
Portugal aboliu a monarquia em 1910 e atravessou 16 anos turbulentos de governo republicano — golpes, assassinatos, dezenas de governos. A instabilidade preparou o terreno para o que veio a seguir.
O Século XX — Salazarismo e Crescimento Industrial
Décadas de autoritarismo moldaram o Portugal moderno — incluindo a identidade industrial da margem sul.
O Estado Novo (1933–1974)
António de Oliveira Salazar chegou à presidência do Conselho em 1932 e consolidou a ditadura do Estado Novo em 1933. O seu sucessor, Marcelo Caetano, manteve o regime até 1974. Quarenta e um anos de autoritarismo — censura, polícia política (PIDE), guerras coloniais, repressão da oposição.
Concentração industrial
Apesar da ideologia ruralista e conservadora do regime, a indústria concentrou-se fortemente na Margem Sul. O estaleiro da Lisnave na Mitrena (a leste de Setúbal) e o da Setenave, mais a sul, tornaram-se grandes empregadores. O complexo químico da Quimiparque, no Barreiro, empregava milhares. A indústria conserveira de Setúbal continuou em grande escala.
Movimento operário
A concentração de operários na margem sul fez dela um dos grandes centros da organização laboral clandestina durante a ditadura. Os trabalhadores da Lisnave, da Quimiparque e da Setenave organizaram-se contra o regime através de sindicatos clandestinos e redes políticas. Esta história converge com os acontecimentos do 25 de Abril de 1974 — tratados no nosso guia dedicado ao 25 de Abril.
As guerras coloniais (1961–1974)
Portugal combateu para manter as colónias africanas — Angola, Moçambique, Guiné-Bissau — ao longo dos anos 60 e do início dos anos 70. As guerras eram invencíveis, caras e impopulares. Dezenas de milhares de conscritos portugueses morreram; centenas de milhares serviram. As guerras esgotaram o país e foram a causa próxima da revolução de 1974.
O 25 de Abril de 1974 e o Portugal Moderno
A revolução sem sangue que pôs fim à ditadura e tornou possível o Portugal de hoje.
A Revolução dos Cravos
Em 25 de abril de 1974, um movimento coordenado de oficiais intermédios do exército — o Movimento das Forças Armadas (MFA) — derrubou a ditadura do Estado Novo num golpe praticamente sem sangue. Poucas horas depois da madrugada, os blindados estavam no centro de Lisboa e o regime tinha caído. A florista Celeste Caeiro começou a distribuir cravos vermelhos aos soldados; as tropas puseram-nos nos canos das espingardas; o dia ficou batizado como a Revolução dos Cravos.
O papel da margem sul
Os operários da Margem Sul foram uma das grandes forças políticas do primeiro período revolucionário. Os trabalhadores da Lisnave, em particular, tomaram ações coletivas nos meses seguintes à revolução que ajudaram a moldar o que veio a seguir — as nacionalizações, a descolonização, a lenta construção de uma constituição democrática. Veja o guia dedicado ao 25 de Abril para a história completa.
Descolonização e democracia
O novo regime concedeu a independência às colónias africanas no espaço de um ano. Centenas de milhares de portugueses — os retornados — regressaram a um país em convulsão. A Constituição de 1976 estabeleceu uma democracia parlamentar. O Partido Comunista foi legalizado. A direita reorganizou-se. O equilíbrio político levou anos a estabilizar.
A adesão à Europa (1986)
Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia) em 1 de janeiro de 1986. Os fundos europeus e o mercado único transformaram o país nas décadas seguintes — novas autoestradas, universidades ampliadas, a ponte Vasco da Gama (inaugurada em 1998), a regeneração da Expo 98 em Lisboa, a adoção do euro em 2002.
Declínio industrial e reinvenção
Os estaleiros da Lisnave e da Setenave declinaram ao longo dos anos 80 e 90. A Quimiparque acabou por fechar. A indústria conserveira de Setúbal encolheu. A margem sul teve de encontrar uma nova identidade — em parte cintura residencial de Lisboa, em parte destino de turismo e de estilo de vida, em parte polo de novas indústrias limpas. A transformação continua.
A Margem Sul Agora
Onde está a margem sul em 2026 — e o que a sua história continua a moldar.
Mudanças demográficas
Os preços da habitação no centro de Lisboa têm empurrado cada vez mais compradores para o outro lado do Tejo. A margem sul tem absorvido tanto famílias portuguesas afastadas da capital pelos preços como uma vaga de compradores internacionais do Reino Unido, dos Estados Unidos, de França, do Brasil e não só.
Narrativas de regeneração
Os terrenos industriais estão a ser refeitos. A zona da Quimiparque, no Barreiro, é a maior oportunidade de reconversão em aberto na Grande Lisboa. A antiga frente ribeirinha da Lisnave, em Almada, tem vindo a ser convertida gradualmente em usos mistos. Os terminais fluviais da Margem Sul estão a ser modernizados.
Continuidade com o passado
Sesimbra continua a desembarcar peixe na mesma baía. Setúbal continua a fazer conserva e a exportar. Azeitão continua a fazer Moscatel de vinhas plantadas há séculos. A Festa das Vindimas, em Palmela, em setembro, é uma tradição ininterrupta desde 1963. E o 25 de Abril celebra-se todos os anos com concertos, desfiles e as canções que tocaram na rádio em 1974. Veja o nosso guia de festas.
A forma da identidade
A Margem Sul tem identidade própria — não é apenas um subúrbio de Lisboa, não é o Algarve, não é o Alentejo rural. A combinação de herança operária e industrial, tradições de pesca e de campo, o parque natural e a costa, e a camada internacional recente faz dela uma das zonas mais interessantes do Portugal contemporâneo para se viver.
Onde sentir a história ao vivo
O Castelo de Palmela e o Castelo de Sesimbra para o período mouro e medieval. As ruínas de Tróia para o romano. O Palácio da Bacalhôa (Azeitão) para o Renascimento. O Convento da Arrábida e o santuário do Cabo Espichel para o património religioso. A frente ribeirinha de Almada/Cacilhas para a era industrial. E a própria Ponte 25 de Abril — rebatizada em 1974, quando deixou de ser a «Ponte Salazar» — é o pedaço de história revolucionária mais legível que se pode atravessar todos os dias.